Existir é Ser Visto
A Ditadura do Like e o Novo Narcisismo
Eu escrevi esse texto em formato de roteiro para um episódio do meu podcast Fluxos da minha consciência no dia 11 de novembro de 2024. Eu fiquei tão obcecado por esse tema que resolvi adaptá-lo para ser o meu primeiro texto aqui no Substack. Portanto, espero que você goste e reflita.
Semana passada, me deparei com uma frase que não me saiu da cabeça: “Existir é ser visto.” Ela acendeu uma centelha que virou uma cascata de pensamentos sobre a sociedade em que vivemos. No meu texto de hoje, convido você a mergulhar comigo na reflexão sobre o narcisismo da contemporaneidade. Para começar, precisamos compreender o que é o narcisismo: um amor excessivo por si mesmo, marcado pela necessidade incessante de ser admirado e validado pelo olhar do outro. A frase que citei, “Existir é ser visto”, foi dita pela filósofa Marilena Chauí, em um programa da TV Brasil. Ela afirmou que o que vivemos não é apenas uma mudança tecnológica, mas uma verdadeira mutação civilizacional. Segundo ela, estamos diante de uma nova subjetividade: narcisista, dependente e, inevitavelmente, depressiva. Afinal, quando nossa existência depende do olhar alheio, e não temos controle sobre ele, nascem a angústia e o vazio.
As redes sociais normalizaram esse comportamento. Viramos escravos da opinião alheia. Postamos, esperamos likes, sofremos quando o post “flopa”. O like virou um selo de existência: “Olhem para mim, estou aqui.” É impossível não lembrar do episódio Nosedive, de Black Mirror, em que a vida de cada pessoa gira em torno da pontuação social, um futuro que, em certa medida, já é o nosso presente.
O narcisismo digital também se reflete no culto ao corpo e aos padrões de beleza. Corpos esculpidos, rostos retocados, juventude eterna: uma vitrine interminável. Mas a que custo? Fazemos isso por nós ou pelos outros? Basta um comentário negativo em meio a milhares de elogios para desmoronar as certezas. Nas redes, mostramos apenas o recorte mais luminoso da vida. O que é sombra fica de fora. Quem olha de fora esquece disso e acaba acreditando que a felicidade plena é possível, e se sente diminuído ao não alcançá-la.
Esse fenômeno é visível em diferentes culturas. O padrão de beleza sul-coreano, por exemplo, tornou-se mundialmente famoso com a chamada K-beauty. Mas na Coreia, esse ideal rígido se impõe com tanta força que influencia até na conquista de empregos. Surgiu até um movimento de resistência, o Escape the Corset, liderado por mulheres que se recusam a viver aprisionadas por essa ditadura da aparência. Aqui, novamente, a frase ecoa: “Existir é ser visto.” Ser visto, porém, apenas dentro da moldura imposta.
Na literatura e nos contos de fadas, também encontramos figuras marcadas pelo narcisismo. Quem não se lembra da Rainha Má perguntando ao espelho quem era a mais bela? Ou de Dorian Gray, preso à própria vaidade e juventude, sacrificando tudo em nome de sua imagem? Ambos são retratos simbólicos de um desejo que não conhece limites: o de ser visto, admirado e, acima de tudo, reconhecido.
A verdade é que o mundo moderno mexe com todos nós. E, queira ou não, está moldando a subjetividade de uma geração inteira. Para finalizar, eu gosto de indicar um livro com alguma relação com o texto: a minha sugestão é História da Feiura, de Umberto Eco. Um livro que mostra, remonta e explica o que é a feiura através do tempo, muito conectado à cultura e à época.
Ouça o episódio completo aqui: Existir é Ser Visto


